Entrevista com Ana Basaglia

A entrevista a seguir foi publicada no blog “Vestida de Mãe” em 31 de Agosto de 2015 e pode ser encontrada neste link.

“O livro que você tem em mãos não busca o “meio-termo”, mas toma claro partido. Este livro parte do princípio de que as crianças são essencialmente boas, que suas necessidades afetivas são importantes e que nós, pais, devemos a elas carinho, respeito e atenção. Quem não estiver de acordo com essas premissas, quem preferir acreditar que seu filho é um “monstrinho” e estiver procurando truques para obrigá-lo a cumprir tarefas, encontrará (infelizmente, na minha opinião) muitos outros livros que estarão mais de acordo com suas crenças.

Este livro está a favor dos filhos, mas não se deve pensar por isso que ele está contra os pais pois precisamente só na teoria da “criança má” existe esse confronto.”

O trecho acima, parte do livro Bésame Mucho, deixa claro que seu autor, no caso o pediatra espanhol Carlos González, é um grande defensor das crianças e do amor. Tal passagem é a favorita de Ana Basaglia, da editora Timo, responsável por trazer a publicação ao Brasil. Para quem não conhece as ideias do médico, de forma resumida, elas andam na contramão de grande parte das teorias educacionais, que estipulam dezenas e dezenas de regras. O pediatra prega que a ‘principal norma’ deve ser sempre justamente o amor incondicional! Para ele, o fato dos pais darem muito afeto a uma criança jamais terá um efeito negativo em sua vida. “A partir de fundamentos científicos, ele aproxima a mãe (e o pai) de suas crenças e de seu coração, e nos diz que as respostas estão dentro de nós, e nos dá coragem para ouvi-las e praticá-las.”, revela Ana. Designer gráfica, ativista da amamentação (ela é uma das fundadoras do grupo Matrice – Ação de apoio à amamentação) e mãe de três filho, Ana Basaglia nos conta, a seguir, um pouco sobre a sua trajetória, que inclui a criação da editora Timo, para poder trazer o Bésame Mucho ao Brasil. Confira!

Como foram seus primeiros contatos com os livros/ideias do González? Muitas teorias, ‘conselhos’ e crenças caíram por terra?

Fui apresentada ao González pela Analy. Ela foi educada fora do Brasil, já trazia essa visão de grupos de apoio dos EUA, participava de listas de discussão estrangeiras. AMEI de paixão desde o início, era como uma confirmação (das minhas escolhas), e ao mesmo tempo adorava a simplicidade com que ele sempre apresentava seus pontos de vista.

As ideias reveladas pelo dr. González em seus livros vão de encontro com grande parte das teorias educacionais mais conhecidas e difundidas. Isso causa um estranhamento nos leitores?

Sim, podem causar um certo estranhamento à primeira vista, sem dúvida. Mas acho que o González encontrou uma fórmula bem interessante para falar o que fala: ao mesmo tempo que ele usa exemplos simples e cotidianos, ele é médico e pesquisador. Ou seja, se o leitor estiver lendo o livro com franqueza (desarmado de preconceitos, por assim dizer), o texto acaba não “assustando” tanto assim no final, porque todo mundo se enxerga nos exemplos, reconhece a sensatez dos argumentos, e ainda se sente seguro com o embasamento teórico apresentado. Acho que é isso que eu mais amo nos textos do González: a partir de fundamentos científicos, ele aproxima a mãe (e o pai) de suas crenças e de seu coração, ele nos diz que as respostas estão dentro de nós, e nos dá coragem para ouvi-las e praticá-las.

Ele prega algo muito mais simples do que impor dezenas de regras: o uso do amor como método mais importante. Certo?

Exato! Minha amiga que revisou a tradução do Bésame definiu assim: “como boa aquariana que sou, você sabe que eu não gosto de regras; mas se tivesse que escolher, as ‘regras’ do González seriam as melhores”. E é isso, a principal ‘regra’ que ele apresenta é, de fato, o amor, o respeito, a liberdade (num sentido equilibrado, não-permissivo) no trato com nossas crianças.

Pode contar como e quando decidiram fundar o grupo de apoio à amamentação Matrice?

Em 2003, durante a gestação da minha caçula, eu participava de um grupo de discussão sobre parto natural. Depois que ela nasceu, as conversas sobre parto foram perdendo força para mim, dando lugar às questões do pós-parto e, principalmente, de amamentação. Algumas mulheres desse grupo amadureceram a ideia de formar um grupo de apoio para amamentação, a fim de ampliar e aprofundar a conversa. Em 2006, então, depois de muitos debates internos, eu, Fabiola Cassab e Analy Uriarte montamos a Matrice – Ação de apoio à amamentação. Logo algumas amigas se juntaram a nós, outras saíram; hoje somos um grupo pequeno e coeso de coordenadoras, com lista de discussão no Yahoo, blog, grupo e página no Facebook e encontros semanais gratuitos no bairro de Pinheiros, em SP

As teorias de González em relação ao amor e ao afeto estão completamente alinhadas com a posição dele de defender/incentivar a amamentação, certo? Diria que tais fatos são complementares? Digo, a relação é direta e evidente?

Sim, sem dúvida! O autor acredita que toda criança tem o direito de ser tratada com amor, respeito e equilíbrio, e se faz necessário inserir o aleitamento nesse “pacote”. A amamentação só será possível, prazeirosa e eficaz, de maneira plena, se a gente lidar com ela com poucas regras, como são (ou devem ser) nossas relações de amor e afeto. Ou seja: amamentar é um direito da mulher, um direito do bebê e ninguém precisa de muitas regras — mas conhecimento e apoio são sempre bem vindos. Como ele é pesquisador desse assunto há muito tempo, ele oferece ao leitor dados científicos que desmistificam algumas das regras desatualizadas e equivocadas de outros autores — e essas informações podem fazer muita diferença na história de amamentação de cada um.

Como surgiu a ideia da editora Timo e de você mesma publicar os livros do González aqui no Brasil?

Sou designer gráfico desde sempre, tenho um estúdio próprio, faço trabalhos bacanas, estou bem satisfeita com minha profissão. Minha atuação como ativista da amamentação é uma entre minhas inúmeras facetas, algo que eu faço com paixão e voluntariamente, é minha contribuição social. Tentamos algumas vezes, como grupo de apoio, fazer a ponte entre o González e alguma editora brasileira, mas isso nunca se concretizou. Até que, em 2013, acabei decidindo mudar o CNPJ do meu estúdio de design gráfico para ser também editora e poder publicar os livros dele aqui no Brasil. Deu certo! Num baita lance de sorte, eu estava no lugar certo na hora certa, e consegui comprar (com a ajuda de uma amiga investidora) os direitos de publicação doBésame. Assim, a editora Timo é um projeto onde pude juntar meu ativismo – refletido na escolha de bons títulos que eu sentia falta de serem publicados aqui no Brasil –, e toda minhaexpertise na área editorial – afinal, são mais de 20 anos trabalhando com livros, até Prêmio Jabuti eu já ganhei.

Como foi o processo de publicar o Bésame?

Editar livro é bem trabalhoso… Demoramos 18 meses para conseguir publicar esse livro, só lançado em julho de 2015. O Manual prático de aleitamento materno (o outro título do González) saiu um pouco antes, em novembro de 2014, lançado discretamente no ENAM de Manaus. A Editora Timo comprou os direitos junto à editora espanhola e o passo seguinte foi cuidar de toda a produção gráfica: tradução, revisão, editoração, ISBN, capa, aprovação com autor e editora, impressão, até seu lançamento no mercado. A distribuição nas livrarias é ponto nevrálgico para qualquer livro, estamos cuidando disso, tudo a seu tempo; por enquanto as vendas acontecem apenas pelo site da editora.

Você enxerga sua atuação de ativista da amamentação e mesmo a atuação da editora como uma contribuição social, certo? Pode contar um pouco sobre essa paixão e determinação…

Eu sempre achei que toda pessoa tem o dever de dar alguma devolutiva para a sociedade, que não basta cada um cuidar de si e pronto. Quando eu era pequena, minha mãe participava da APM da escola, fazia trabalho voluntário, essa contribuição social sempre permeou minha vida. Já adulta, quando engravidei da caçula, a internet me propriciou o encontro virtual com pessoas que pensavam de modo semelhante e eu me envolvi bastante com os grupos de discussão. Meu temperamento não permite que ninguém fique ditando como devo tratar um filho meu e eu ficava imaginando que mundo difícil e cheio de regras minhas meninas (principalmente elas) iam topar pela frente . Daí pro ativismo, foi um pulo! Se eu posso dizer para uma amiga (virtual ou real) que ela pode amamentar sim, que ela tem leite e seu leite não é fraco nem insuficiente, que ela pode manter seu bebê no seio sem olhar no relógio, que ela pode dormir com o bebê sem medo de fazer mal a ele, que o filho dela merece respeito e consideração mesmo sendo tão novinho, e que essas coisas são referendadas por especialistas sem conflitos de interesses (econômicos, principalmente), eu vou dizer! O que ela vai fazer na casa dela, é problema dela, mas que ela vai ouvir que esse outro modo de viver a vida é possível, ah, vai! Com relação à editora Timo, ela é uma empresa gerida por uma ativista, sem dúvida, com muitos valores em comum com meu próprio ativismo, mas que enxerga um mercado mais amplo e diverso, ainda carente de bons títulos na área de amamentação e criação com apego.

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