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ClubHouse e o FoMO da vida real

A rede social ClubHouse recentemente chegou ao Brasil e já criou um clima de expectativa no melhor estilo clubinho fechado. Coerentemente com o próprio nome, a rede ofereceu um período clubinho, “exclusivo” para os chamados early adopters – parcela da população que é formadora de opinião e se interessa muito pelas novidades para contar ao mundo do que se tratam, especialmente aquelas ligadas às novas tecnologias. A estratégia é cada dia mais usada para dar esse ar de difícil acesso a plataformas e ambientes digitais, numa tentativa nem sempre bem sucedida de criar escassez no ambiente virtual. 

Ainda que a rede se defina como um espaço para amplas trocas a partir de áudio, uma vez que se organiza em sala onde apenas as vozes dos participantes são divididas, nas letras pequenas existem dois avisos importantes: o primeiro é que para usar a rede é necessário ter um dispositivo IOS, o que já limitou a acessibilidade de uma parte interessante da sociedade num recorte não necessariamente socioeconômico; o segundo é que para acessar a rede é necessário um convite de alguém que você conhece – ou seja, se você já está no clube então você está no clube. Resumindo, se você tem um I-qualquer coisa e amigos razoavelmente influentes você já tem uma conta no ClubHouse… ou não.

O FoMO gerado com os primeiros anúncios do aplicativo foi notável. FoMO, ou fear of missing out, é uma expressão criada para traduzir o sentimento que muitas pessoas experimentam de ansiedade e necessidade de conhecer algo que é uma novidade que promete (ao menos em sua percepção) transformações profundas.

Em outras palavras, é o medo de estar por fora de uma novidade impactante da qual todo mundo que é descolado já ficou sabendo. Esse sentimento é desencadeado por uma série de gatilhos mentais, sendo um dos mais potentes a escassez, essa ideia de exclusividade que as pessoas buscam por necessidade de pertencimento a um grupo. Só sobe pro camarote quem tem a pulseirinha, só entra no clubinho quem tem convite. 

Mas me parecia que tinha alguma coisa de errada nessa porta de balada VIP. Eu estava lá nos primeiros dias (podem me julgar, sou early adopter de carteirinha) e senti que faltava gente, faltava bossa. Como sou daquelas que leva os meus comigo pro show, tratei de encontrar meios pra colocar meus amigos pra dentro da festinha privada – e percebi que muitos deles não queriam ir não. Eita, como assim? 

Acontece que parecia que o FoMO, nesse caso, estava bem acompanhado pelo JoMO. O JoMO, ou joy of missing out, é uma espécie de alegria que algumas pessoas sentem exatamente por estarem excluídas de um contexto exclusivo. Sabe aquela pessoa diferentona, que nem liga quando dizem que ela não pode entrar de chinelo na festa porque ela nem queria mesmo ir. Pois é, JoMO. Entre os amigos que ainda não tinham entrado pro clubinho percebi alguns nessa vibe de não tenho convite – mas também não quero mesmo. Obrigada, de nada.

Fiz então uma pesquisa pra entender o que estava acontecendo, quase duas mil pessoas responderam sobre estar ou não no ClubHouse e como se sentiam com isso, e o resultado foi de muito mais JoMO do que FoMO. A amostra era bem ampla, visto que o público do Só Mãe Mesmo está bem espalhado pelo Brasil e tem uma variação bem extensa de faixa etária – mães, avós, pais, avôs e uns amigos meus pra todo gosto. A parcela de pessoas que não estavam no aplicativo ainda foi grande, quase 80% de quem respondeu sabia do que se tratava e não tinha tido acesso ao ClubHouse até semana passada, só que, deste povo, apenas aproximadamente 15% queria de fato estar lá. Ou seja, tinha muito, mas muito mais gente mais alegre por não estar lá do que ansiosa/curiosa para ver do que se tratava, ou tendo convite e escolhendo não entrar. 

Será que algumas pessoas disseram que nem queriam ir só pra não admitir que não tinham convite? É possível, claro, mas o acesso não é tão complicado quanto parece e apenas fazer a aplicação na lista de espera já é metade do caminho andado para entrar.

Agora, um detalhe me impactou nessa pesquisa: muitas pessoas fizeram questão de ressaltar que estavam alegres por não estar no ClubHouse porque já dividiam seu tempo com muitas tarefas para ter MAIS UMA rede social para dar conta. Traduzindo, as redes sociais já estavam roubando tanto tempo de sua vida real que era preferível nem ter mais uma opção. Opa, era o FoMO de novo na jogada, mas um medo diferente: FoMO de estar perdendo sua vida real enquanto navega nas redes.

A tal alegria de não pertencer não é guiada pela necessidade de se afastar de uma tentação, por assim dizer. Não é tira esse brigadeiro da minha frente senão eu como, é uau, estou tão ok com minha dieta que pode deixar esse brigadeiro aí que eu nem ligo, estou melhor sem ele. Muitas pessoas estavam (ou estão) evitando acessar o ClubHouse porque ele é mais um brigadeiro tentando sabotar a sua dieta, mas sem perceber que enquanto não ajustarem essa dieta tudo vai parecer tentador quando por vezes nem é. 

Quanto ao ClubHouse, é divertido, tem umas salas temáticas interessantes e, como a imagem fica um pouco de lado, é uma rede social com menos aspectos de vaidade – apesar do pessoal já estar comparando número de seguidores, óbvio. Acho que ainda vai sair muita coisa boa dali, mas eu sou do time de early adopters democráticos, então acredito que vai ficando mais legal cada vez que mais pessoas puderem acessar. 

Eu estou por lá, podem chegar nas minhas salas que estaremos falando de educação, comunicação ou maternidade – ou estaremos imitando pilotos de avião e comissários de bordo madrugadas afora, dando muitas risadas. Redes sociais tem de ser sinônimo de entretenimento e eventualmente informação, essa é a lei pra evitar esse medo do brigadeiro. 

  Vida real em áudios tem nas mensagens faladas do seu WhatsApp, contando pros seus amigos as aventuras e desventuras da sua vida, ou perguntando pra sua irmã como faz aquele bolo de chocolate passo a passo. No meu caso, que falo pouco, pequenos podcasts da vida real disfarçados de áudios. 

Dividir as coisas é fazer as pazes com a dieta e com todos os docinhos da festa de uma vez só. Repensar a relação com as redes não é abandoná-las, é usá-las e não ser usado. Agora, se você quiser entrar pro clubinho e ainda não tiver convite, experimente falar pros seus amigos, todo mundo sempre tem alguém que tem um amigo que conhece o promoter da balada, mas você precisa dizer que quer ir.

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