Culpa e responsabilidade, simpatia e empatia
Parece, mas não é.

CULPA
– Falha deliberada no cumprimento de um dever ou de um princípio ético.
– Consciência penosa por ter falhado no cumprimento de uma norma social ou moral.
– Responsabilidade por algo, condenável ou danoso, causado a outrem.

RESPONSABILIDADE
– Obrigatoriedade de responder pelos próprios atos ou por aqueles praticados por algum subordinado.
– Obrigação moral, jurídica ou profissional de responder pelos próprios atos, relacionados ao cumprimento de determinadas leis, atribuições ou funções.
– Dever imposto por lei de reparar os danos causados a outrem.

SIMPATIA
– Impressão ou disposição favorável que alguém experimenta em relação a outrem que acabou de conhecer.
– Atração por uma coisa, ideia, causa etc.
– Faculdade de sensibilizar-se com os mesmos sentimentos ou ideias de outrem

EMPATIA
– Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa.
– Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem.
– Capacidade de interpretar padrões não verbais de comunicação.
– Sentimento que objetos externos provocam em uma pessoa.

Começando pelo dicionário, que eu sempre acho válido, fica claro que, em determinadas situações, o significado vai além das palavras e os conceitos podem se confundir (vejam o que está em itálico).

Nas definições, os conceitos também se confundem, apesar de serem abordagens próximas, porém com causas, efeitos e consequências muito distintas.

Em termos de ideias e imagens, a CULPA se mostra com SIMPATIA e a RESPONSABILIDADE se assume com EMPATIA.

Como é mais reconfortante ser SIMPÁTICO a alguém ou a alguma causa, apontando a CULPA nos outros. Como é doloroso, difícil, mas EMPÁTICO se colocar com, pelo menos, parte da RESPONSABILIDADE.

A CULPA, apontada para alguém, é um ponto final. É um fim. É paralisante. Se a CULPA é minha, eu sou a causa do problema e, assim, serei punido por ela. Preciso me DESCULPAR (Do mesmo dicionário: Eliminar ou abrandar a culpa de alguém ou de si próprio). Assim, dependo do meu perdão ou do de quem eu possa ter prejudicado. Se a CULPA é do outro, dependo dele e do que acontecer com ele para que eu possa seguir em frente. A CULPA tem um vilão (ANTIPATIA) e uma vítima (SIMPATIA). Aqui tem JULGAMENTO.

A RESPONSABILIDADE é um pouco mais complexa. Ela é uma vírgula ou uma reticência… Ela requer e pede continuidade. Ela é compartilhada. Assim, temos que reconhecer a nossa parte (boa ou ruim) e nossos limites e entender qual é a parte do outro e os limites dele (EMPATIA). E mais do que isso. Se é RESPONSABILIDADE nossa, temos que, ou pelo menos podemos, agir. Então depende de nós. Olharmos para o que não está com os resultados esperados e encararmos como uma oportunidade de aprender e transformar é mais difícil e trabalhoso, pode até ser mais doloroso, mas é mais pleno, verdadeiro e definitivo.

Juntem esses “ingredientes” (CULPA e SIMPATIA), adicionem temperos especiais (gestação, maternidade, parto, amamentação, trabalho, políticas públicas, leis, redes de apoio, vulnerabilidade, solidão, dor) a esse “cardápio”, coloquem “amor” como pano de fundo e exponham esse “produto” com uma sensível música de fundo e… assim se criam as mensagens subliminares que não são decodificadas pelo público-alvo e assim, o resultado, é… aumento de vendas. Vendas de ideias. Vendas de produtos.

Vem um pouco mais comigo

Há alguma dúvida de que o leite materno é o padrão-ouro da alimentação infantil?
Há alguma dúvida de que as vacinas salvam vidas?
Há alguma dúvida de que as telas e seus excessos são prejudiciais à saúde infantil?

Então, qual a razão de termos menos de 50% das crianças em aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, de as taxas de vacinação estarem caindo a cada ano e os grupos antivacina aumentando e de cada vez mais crianças com consequências do uso de telas?

Existe um CULPADO?
Não. Lógico que não.

Mas existem RESPONSÁVEIS (os mesmos de sempre, conhecidos – falta de rede de apoio, de políticas públicas, de legislação trabalhista adequada, de apoio da sociedade, de educação e ensino sobre o tema, de… complete nos seus pontinhos).
Mas nós, também, temos parte dessa RESPONSABILIDADE.

Não existe nenhuma ação isolada que resolva cada um ou todos esses problemas. Depende de conscientização sem ilusões, de ações coletivas na mesma direção.

DIVIDIR PARA CONQUISTAR

Essa é uma das estratégias mais antigas, mais conhecidas e mais utilizadas nos meios de guerra. Mas isso é uma guerra? Não deveria, mas é quase isso. Está mais para uma batalha diária que tem “os mocinhos e os bandidos”.

Cabe a cada um de nós analisar quem está interessado, de verdade, sem conflitos de interesse, no resultado favorável e quem quer lucrar com a culpa dos outros, mesmo parecendo simpático.

Lobos em pele de cordeiro.
Não há cheiro bom que engane.
O gosto pode ser amargo.


Moises Chencinski
é pediatra e homeopata, criador
e gestor do movimento “Eu apoio leite materno”. Pode ser encontrado nos perfis do
Instagram @doutormoises/@euapoioleitematerno/@omelhorprodutodomundo