Essa semana o texto da Milly Lacombe sobre a descoberta de que há um “talento inato” para ser pai nas mulheres repercutiu em todas as mídias, mostrando que ainda há uma lacuna imensa entre os papeis da mãe e do pai nesse mundo de ter filhos. E que a perspectiva de ter filhos pra quem vai ser pai é bem menos assustadora.

Uns dias depois a Hellen Ramos reiterou o posicionamento, agora do lugar da mulher que já é mãe e também se identifica com essa novela, porque percebe que ser pai poderia ser uma experiência bem diferente no ter filhos.

Verdades sobre ser mulheres-mães e homens-pais

Tem muitas verdades nas palavras delas que estão engasgadas na garganta das mulheres há tempos. O pacto social que fala da igualdade de gênero esquece umas coisas importantes como a diferença salarial, a vulnerabilidade do feminino numa sociedade patriarcal e, enormemente, as questões correlatas à maternidade.

Tem um artigo científico meu sobre a entrada e permanência das mulheres na universidade que foi esse mês para um periódico bem reconhecido, só que esse mesmo artigo foi rejeitado pelo periódico inicial que tinha solicitado ele. Por quê? Porque nele eu falo, entre outras coisas, que o corpo que gesta, pari e amamenta é o feminino, então colocar homens-pais e mulheres-mães na mesma balança quando se trata de carreira acadêmica era meio absurdo. Isso foi considerado uma inconformidade com as normas da revista, visto que (palavras deles) “uma vez que a mulher reivindica igualdade de condições compreendemos que ter filhos é uma carga que recai sobre os dois gêneros”. Recai sobre os dois gêneros? Com certeza! Mas é do mesmo jeito? Não mesmo. A maternidade que muda a vida radicalmente é feminina meu bem. Igualdade é outra coisa, o que queremos chama-se equidade.

O ponto de conversão dos textos é uma verdade absoluta: ser pai é possível enquanto segunda carreira, ser mãe é outra história. E está na hora de todo mundo estar preparado para essa conversa.

O papel que já conhecemos: o paizão dentro do possível

O pai retratado nesses textos tem um papel interessante, de participar da vida dos filhos enquanto sua própria vida continua acontecendo muito parecida. O homem continua fazendo tudo o que eu fazia e é pai dentro do possível. Eu não quero com isso diminuir os pais não, tá tudo certo galera, é só que vocês precisam reconhecer que a carga da mãe é ignorantemente maior que a de vocês – e quase sempre não reconhecem. Pior, com o aval de outras mulheres, por vezes as próprias avós oferecendo às noras suas próprias dores mal curadas. A gente é mãe o tempo todo e não quando dá. Inclusive enquanto dorme, até porque a gente dificilmente dorme tudo isso.

O mundo mudou, o papel da mulher na sociedade mudou, os espaços de trabalho para a mulher mudaram – ainda que a remuneração não tenha andado no mesmo passo. Mas o peso da maternidade não mudou muito não.

O pai que dá banho quando chega do trabalho é rei. Se brinca junto um pouco é o melhor de todos. O pai que pega no fim de semana é fofo e, se compra o material escolar, é fora da curva. O pai que sai pra viajar uma semana depois que o bebê nasceu enquanto a mãe se afoga em leite e lágrimas é um herói.

E a mãe vai ficando, vai esquecendo até de quem é, ela é mãe e mais o que der tempo. Ninguém é só mãe mesmo, foi assim que nasceu tudo isso, mas ser mãe acaba sendo algo indissociável de todo o resto. Ah, e não tá fazendo mais que a obrigação.

A qualquer erro: cadê a mãe dessa criança?

E é sobre isso esse papo, sobre a tal da obrigação. É tão forte isso da obrigação de dar tudo certo na criação dos filhos ser da mãe que a culpa já chega junto de primeira. Se deu certo a mãe não fez mais que a obrigação. Se deu errado… cadê a mãe dessa criança?

O negócio chega tão longe que as próprias crianças muitas vezes reconhecem no pai um cuidador muito mais legal, divertido, porque o cuidado dele é mais leve, não vem carregado de toda essa tensão de ser vigilante o tempo todo. As mães também são legais, mas elas precisam ter também tempo para serem elas mesmas.

A Dani Junco fala um negócio interessante sobre isso. Ela diz que uma mulher no HH é sempre questionada sobre cadê o filho, mas o homem não, e isso é um excelente indicativo de que a mãe ter vida além da maternidade é socialmente coagido. Errada não tá né?

Ser mãe é sobre um monte de coisas, mas uma coisa bem marcante é que é sobre dar satisfação social o tempo todo. E sobre abrir mão de um monte de coisas que são importantes pra ela sem poder questionar, senão escuta que é mãe porque quer. Ah sim, somos mães porque queremos, e vocês os pais também porque querem, certo? A gente não colocou uma arma na cabeça deles nem nada.

Ei, você pai que está lendo, se sua paternidade está fácil, você não está fazendo direito

Você pai que está lendo esse texto e está meio indignado, deixa eu te perguntar umas coisas: Você sabia que a gente mãe também curte viajar a trabalho e sabe que é gostoso apesar de cansativo? Você sabia que a gente mãe também precisa dormir senão no dia seguinte não aguenta? Você sabia que amamentar deixa a gente tão cansada quanto fazer academia? Você sabia que a gente também ama a nossa carreira e abrir mão dela, ainda que por um período, é uma tremenda prova de amor e não férias? Você consegue entender que ficar em casa o dia todo cuidando do bebê é mais exaustivo do que ficar no escritório e ir ao banheiro ou tomar café a hora que a gente quer? Você sabia que comer comida quente e sentada na mesa também nos traz bastante prazer? Aliás, você sabia que também queremos sentir prazer? Você tem ideia do que é passar mais de uma semana sem tomar sequer um banho sozinha? Olha, não sei se você dava conta, é treta.

E não adianta ficar indignado não, para pra pensar se você aguentava dois ou três anos sem essas coisas, e sem poder reclamar porque senão escuta de alguém (se não do próprio pai) que era só mandar pra escola que estava resolvido. Veja bem, primeiro que não era a mesma coisa porque não existe essa substituição, segundo que a maior parte das pessoas que sugerem isso sugerem também que a mãe trabalhe nesse período pra pagar a tal escola continuando sem tempo pra descansar e, em muitos casos, sem dinheiro. E terceiro e bem importante, mesmo a mãe que opta pela escola e volta ao mercado de trabalho depois de seis meses está arrebentada de cansaço, porque ela continua sendo mãe antes e depois do trabalho do mesmíssimo jeito.
Em tempo: a mãe que chega do trabalho exausta e quer ter algum tempo pra ela é uma desalmada, porque já ficou o dia todo longe da cria e ainda está no celular. Vai vendo.

No medo, na febre e no choro: a responsabilidade é sempre da mãe

Trocando em miúdos: a criança está com febre, a madrugada é longa e a mãe tá lá. A criança está com medo, a família diz que é besteira, ela não para de chorar e a mãe tá lá. A criança está em aleitamento, a mãe tá lá – ou a criança precisa ser alimentada, todos se sentam a mesa para almoçar e a mãe tá lá cuidando da criança. Trabalhe ela ou não. Tenha tido oito horas de sono ela ou não. E aí vem algum homem desconstruído e diz assim: mãe, você precisa se cuidar primeiro senão não pode cuidar de ninguém, coloque primeiro sua máscara para depois colocar a do outro… na real, dane-se. Homens não tem ideia da loucura que é ser mãe. Nem ideia.

Nesse ponto eu até dou uma colher de chá pros pais, porque eles falam de uma coisa que não tem muita noção do que seja. É natural que entendam que se é possível ser pai e continuar fazendo suas coisas seja possível ser mãe nesse esquema também. Mas a gente não pode fazer nada sobre isso, vocês precisam se esforçar pra entender. Temos aparelhos reprodutores diferentes e nem por isso ficamos falando que um chute nas partes baixas de vocês não dói certo? Melhorem.

É mais fácil ser pai do que ser mãe

Resumindo bastante, é mais fácil ser pai do que mãe sim. Pelo menos nos moldes que isso se coloca hoje. A carga emocional é menor, a cobrança é menor e a aceitação social é muito diferente. Sem contar que pra ser pai a gente não passa pelo processo físico e emocional da gestão + puerpério, que é quase nascer de novo. Claro que tem homens que já subiram muitos degraus nessa escada, que já dividem com as mulheres um pouco da responsabilidade de verdade, mas sempre em algum lugar da história aparece a cobrança – ainda que velada – de que a mulher viva a maternidade sem vivê-la de fato, como é, um mergulho no desconhecido onde ela tem que aprender a ser ela mesma de novo.

Mesmo com todas as concessões, o abraço e o beijo de eu te amo vem igual pra mãe e pro pai, principalmente quando a mãe consegue não desmoronar toda a falta de cuidado que também sente.

Correndo um enorme risco de ser apedrejada aqui eu digo que o pai, independente de estar ou não em um relacionamento com a mãe, tem sim obrigação de cuidar dela para que possa ser a mãe maravilhosa que o filho deles merece. E o que eu mais vejo e escuto são mulheres-mães que sentem que tem outro filho no pai da cria. É quase acúmulo de função, se maternidade fosse regida por CLT a gente recebia inclusive insalubridade.

É diferente ser mãe e ser pai. Claro que é. E eu não acho que nasci pra ser pai, meu negócio é ser mãe mesmo. Mas seria muito bom pra todas nós, mulheres-mães, independente das nossas escolhas, sentirmos que temos um par nessa jornada, e não um ajudante. E um que ainda dividimos com outros setores.

Agora, dizem que tem pai que é completamente diferente. Dizem que tem… onde mora, o que come e como vive eu particularmente não sei. Nem nunca vi nenhum fazendo reunião no home office com um filho pendurado no pescoço e outro gritando do banheiro, por mais descontruído que seja.