Não é de hoje que o ser humano sonha e se “prepara” para o futuro. Isso pode ser observado em desenhos e filmes como (aí você vai denunciar seu DNA – Data de Nascimento Antiga) os Flintstones (1960), os Jetsons (1962), Nacional Kid (1964), Perdidos no Espaço (1966) ou o Túnel do Tempo (1967). E isso tudo, antes do primeiro pouso do homem na Lua (Apolo 11 em 1969). E os robôs, a automação, as viagens no tempo fizeram parte de quase todos os “delírios” dos autores e de nossos sonhos e aspirações (Rose, a base do forno de micro-ondas, a frase do Robô B-9 – “não tem registro” ou “Perigo, perigo”).
E com a evolução da tecnologia e da ciência, a velocidade dessas transformações ganhou um ritmo que, para quem não é da área, fica muito difícil e trabalhoso acompanhar. Só para que se tenha uma ideia, no Brasil, o e-mail passou a ser usado em 1996 e em 27 anos passamos pelo Google (2005), Facebook e Youtube (2007), Twitter (2009), WhatsApp (2010), Tik Tok (2018) e IA (2023). Isso sem contar que o celular chegou ao Brasil em 1990, como um “tijolão” (350 gramas) e hoje cabe em um bolso (em média 175 gramas).
Não há como frear ou reduzir a velocidade dessa trajetória e isso traz, muitas vezes, sensações de que fomos “atropelados” ou “carregados” por uma enxurrada de informações e atualizações, sem que possamos nos preparar ou até acompanhar o flow.
No momento, o que temos de mais “avançado” e promissor nesse rumo é a Inteligência Artificial. Já li e ouvi muitas opiniões e demonstrações de benefícios e prejuízos, de acertos e erros, de apostas e riscos a respeito dessa tecnologia. A IA é um caminho sem volta. A busca será sempre por um aperfeiçoamento das possibilidades e correção de trajetória. Um dos questionamentos mais comuns é sobre a substituição do humano pela tecnologia.
E vale prestar atenção no significado das palavras (do dicionário – gosto disso): INTELIGÊNCIA e ARTIFICIAL.
Inteligência: Faculdade de entender, pensar, raciocinar e interpretar;
entendimento, intelecto, percepção. Conjunto de funções mentais que facilitam o entendimento das coisas e dos fatos.
Artificial: Efetuado por meios que não são os naturalmente usados. Produzido por arte ou indústria do homem e não por causas naturais.
Inteligência artificial, Inform: projeto e desenvolvimento de programas de computador que simulam o pensamento humano, capaz de desenvolver um comportamento inteligente.
Mas, vamos ao que interessa?
Muito tempo é dedicado ao estudo e aos debates sobre a IA como essa inteligência artificial, com suas possibilidades e maravilhas, seus riscos e suas vantagens. Por outro lado, será que se aplicássemos o mesmo investimento financeiro, de atenção e tempo ao que é básico e universal, acessível e possível a todo ser humano, como a saúde materno infantil, e, como um de seus itens primordiais, a divulgação e o conhecimento sobre a importância da amamentação, não poderíamos desenvolver outro tipo de inteligência, outra IA? A INTELIGÊNCIA AMAMENTAR?
E se conseguíssemos comparar as duas IAs, a artificial e a amamentar, será que deixaríamos mais clara a potencial semelhança entre suas formas de abordagem, mesmo que uma de máquinas, que importa e interessa a tanta gente e a outra que é muito mais fundamental, mas que, inexplicavelmente, não gera o mesmo cuidado
e investimento?
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL × INTELIGÊNCIA AMAMENTAR
Dois sistemas de informação: um computacional, outro biológico. Para começar, vale ressaltar dois pontos importantíssimos:
- Na Inteligência Artificial, temos um sistema que processa dados para gerar resultados.
2. Na Inteligência Amamentar, temos um organismo vivo que produz leite, um bebê que mama e uma interação fisiológica e relacional entre ambos.
A analogia é conceitual: o leite materno não é simplesmente informação, e o bebê não é um consumidor passivo. Ele participa ativamente do processo de alimentação, com necessidades, sinais e respostas próprias.
Acompanhe o passo a passo:
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Fonte de dados / Fonte de leite
Inteligência Artificial: recebe dados de treinamento e informações de entrada.
Inteligência Amamentar: a mãe produz o leite materno, cuja composição contém nutrientes, componentes imunológicos e outras substâncias biologicamente ativas,
como um alimento vivo, que se modifica e se adapta de acordo com o tempo de gestação (prematuro ou de termo), do começo ao final da mamada, do começo ao final do dia e com o decorrer do tempo. -
Preparação / Produção
Inteligência Artificial: os dados são processados por um modelo treinado, que identifica padrões.
Inteligência Amamentar: a glândula mamária sintetiza e secreta o leite por mecanismos fisiológicos regulados por hormônios, pela remoção do leite e pela livre demanda, alterando seus padrões imediatamente, sempre que solicitado. -
Entrada / Acesso
Inteligência Artificial: o usuário formula uma pergunta ou fornece uma solicitação.
Inteligência Amamentar: o bebê demonstra sinais de fome e busca (solicita) o peito. A posição, pega e sucção adequadas permitem o acesso ao leite. -
Processamento / Transferência
Inteligência Artificial: o modelo calcula e organiza uma resposta com base em padrões aprendidos e no contexto disponível.
Inteligência Amamentar: a sucção do bebê estimula o reflexo de ejeção do leite, e a coordenação entre sucção, deglutição e respiração permite a transferência do leite. -
Resultado / Utilização
Inteligência Artificial: entrega uma resposta, previsão, classificação ou conteúdo.
Inteligência Amamentar: o bebê ingere o leite, digere seus componentes e utiliza os nutrientes e demais componentes biologicamente ativos em processos relacionados à nutrição, à proteção imunológica e ao desenvolvimento. -
Feedback / Adaptação
Inteligência Artificial: o sistema pode utilizar o contexto da conversa para ajustar respostas; o aperfeiçoamento do modelo depende de processos específicos de treinamento ou atualização.
Inteligência Amamentar: a frequência e a eficácia da remoção do leite influenciam sua produção. A mãe e o bebê participam de um processo dinâmico de adaptação, com sinais e respostas fisiológicas. A informação trazida pelo contato da saliva do bebê com a área aréolo-mamilar pode modular respostas nutricionais e imunológicas. - Finalidade / Desenvolvimento
Inteligência Artificial: busca cumprir a tarefa solicitada, dentro de seus recursos e limitações.
Inteligência Amamentar: a amamentação contribui para atender às necessidades nutricionais e imunológicas do bebê e integra uma relação que envolve contato, interação e cuidado. - Políticas de governança / Políticas públicas
Inteligência Artificial: leis, normas, padrões de segurança, proteção de dados, transparência e fiscalização do uso da IA.
Inteligência Amamentar: legislação e programas que protegem a amamentação, apoiam as famílias, qualificam os serviços de saúde e combatem o marketing abusivo de produtos que interferem na amamentação para proteger, promover e apoiar o aleitamento materno.
O que essa comparação pode ensinar?
A comparação permite explorar quatro mensagens:
1.A qualidade da fonte importa. Na IA, a qualidade dos dados influencia os resultados. Na amamentação, a produção e a transferência do leite dependem da fisiologia materna e de condições que favoreçam uma amamentação eficaz.
2.O acesso precisa funcionar. Não basta haver dados se o sistema não consegue utilizá-los. Da mesma forma, não basta haver leite sendo produzido se o bebê encontra dificuldades sociais, culturais, estruturais, educacionais, políticas para mamar e transferi-lo.
3.O feedback faz diferença. Sistemas de IA podem utilizar informações contextuais para ajustar respostas. Na amamentação, a remoção eficaz do leite participa diretamente da regulação da produção e a informação trazida pelo contato saliva do bebê / aréola pode modular de respostas nutricionais a respostas
imunológicas.
4.O apoio externo pode ser decisivo. Sistemas de IA precisam de governança e avaliação. A amamentação precisa de apoio qualificado, serviços de saúde preparados, condições sociais favoráveis e proteção contra práticas comerciais abusivas. As políticas incluem licença-maternidade e proteção no trabalho, apoio profissional e comunitário, financiamento de programas, monitoramento das
práticas e aplicação das normas sobre comercialização de substitutos do leite materno
Assusta ou anima?
Esse texto ressalta uma ironia sutil: somos capazes de criar máquinas cada vez mais sofisticadas, mas ainda precisamos ampliar a inteligência coletiva para proteger, promover e apoiar o aleitamento materno.
Quando propomos a ideia de “Inteligência Amamentar” transformamos a amamentação em um conceito que merece ser explorado, estudado, conhecido, divulgado e não apenas um processo de alimentação.
A Inteligência Artificial já processa bilhões de informações e oferece respostas em segundos. A Inteligência Amamentar expressa a complexidade de um sistema biológico vivo, no qual a mãe produz o leite e o bebê participa ativamente de sua transferência e utilização.
Mas, enquanto a tecnologia avança, ainda precisamos
garantir condições para que a amamentação aconteça: profissionais qualificados, famílias acolhidas, direitos respeitados e políticas públicas efetivas. De que adianta tanta inteligência artificial se ainda nos falta inteligência social para proteger, promover e apoiar o aleitamento materno?
A proposta não é colocar uma inteligência contra a outra, mas colocar a tecnologia a serviço da vida: utilizar a Inteligência Artificial para disseminar conhecimento científico, combater a desinformação e ampliar o acesso à educação em saúde, sem substituir o cuidado humano nem legitimar interesses comerciais. Afinal, produzir
respostas não é o mesmo que resolver problemas, e reconhecer os benefícios da amamentação não é o mesmo que garantir condições para que ela aconteça. Que a Inteligência Artificial avance, que a Inteligência Amamentar seja reconhecida e que a inteligência política transforme conhecimento em direitos, apoio e ações concretas.