ALEITAMENTO MATERNO: o que eu aprendi com meus erros e certezas?

Tenho uma confissão a fazer.

Não sei quando aprendi algo sobre amamentação.

Na verdade, sei mais onde eu não aprendi.

Não foi na Faculdade de Medicina, nem foi na Residência de Pediatria.

E aqui vem a primeira ironia desta história: passamos anos estudando doenças raras, síndromes, exames, medicamentos, diagnósticos diferenciais e procedimentos.

Aprendemos a decorar nomes que ninguém consegue pronunciar. Mas, quando chega a hora de falar sobre aquilo que deveria ser o mais importante para a saúde e a vida de um bebê, afinal sou um pediatra, muitas vezes descobrimos que nossa bagagem é surpreendentemente pequena.

Depois vieram os cursos. Muitos.

Como aluno, como participante e, mais tarde, como alguém que passou a tentar ensinar aquilo que havia aprendido.

Vieram também as Semanas Mundiais de Aleitamento Materno, os Agostos Dourados e fui me envolvendo cada vez mais com o tema.

Até que chegou agosto de 2026.

E esse agosto me incomodou. Muito.

Você sabia que em outros meses, as buscas no Google por “aleitamento materno” ficam, em média, entre 180 e 300 mil, mas em agosto desse ano, passaram de 4 milhões e meio. 4.550.000.

Se eu li tudo? É claro que não. Nem tenho a pretensão de dizer que li sequer uma pequena parte. Mas uma coisa ficou evidente: informação não faltava.

Havia informação para dar, vender, compartilhar, repostar, comentar, corrigir, desmentir e, principalmente, para produzir certezas.

Muitas certezas. Talvez certezas demais.

Participei das atividades da Semana Mundial.

Escutei ou pelo menos tentei escutar.

Usei empatia.

Tentei não julgar.

Juro.

Falhei miseravelmente.

Seria engraçado se não fosse tão preocupante.

O tema da Semana Mundial foi:

“Amamentação para um começo de vida sustentável: FORTALEÇA O QUE FUNCIONA.”

Confesso que o tema não me encantou, mas também não me incomodou imediatamente. Foi preciso esperar.

Escutar mais.

Observar.

Pensar.

E então a ficha caiu (para quem nunca ouviu falar, isso se refere às fichas telefônicas, usadas em orelhões, e que quando caiam davam início às ligações).

Ou melhor: algumas fichas caíram.

A primeira foi sobre uma palavra que parece inofensiva, mas pode ser perigosa:

CERTEZA.

No universo da amamentação, temos especialistas em certezas.

Gente que sabe, com impressionante segurança, exatamente o que uma mãe deveria fazer.

Gente que olha para uma fotografia e diagnostica, que conhece a história inteira de uma família em trinta segundos, que sabe, sem examinar a criança ou avaliar a mamada, se era ou não caso de cirurgia do freio, que conhece a posição “certa” para toda mulher amamentar, que determina o tempo exato de cada mamada, que consegue explicar por que determinada mãe não conseguiu.

E tem gente que, às vezes, tem até a estatística perfeita:

100% das crianças que acompanha chegaram aos seis meses em aleitamento materno exclusivo. Cem por centoooooo.

Nem a vida conseguiu essa façanha. Mas há quem consiga.

E, quando a ciência apresenta um estudo que contradiz a certeza, temos outro fenômeno interessante:

Ou o estudo está errado ou o pesquisador não entendeu ou a evidência não serve para aquele caso.

A experiência pessoal é melhor. E pronto. Resolvido.

Talvez esse seja um dos grandes problemas da nossa profissão: confundimos conhecimento com certeza.

Eu fiz parte desse grupo durante muito tempo.

E foi preciso errar para começar a perceber.

Rubem Alves, em Escutatória, fala sobre a necessidade de esvaziar a cabeça para conseguir realmente ver e ouvir.

É uma ideia simples, mas dificílima, porque profissional de saúde gosta de cabeça cheia.

Cheia de informação, cheia de protocolos, cheia de respostas, cheia de “eu sei” ou “eu já sabia”.

Talvez falte um pouco de espaço para os “não sei”, “me conte”, para o “vamos entender juntos” ou para os “será”?

Há uma frase atribuída a Freud:

“Nunca tenha certeza de nada, porque a sabedoria começa com a dúvida.”

Tenho tentado levar isso a sério.

Até porque tenho um currículo razoável de erros e, provavelmente, ainda estou produzindo novos exemplares.

 

O que eu achava que sabia

Já acreditei que mamadas deveriam acontecer de três em três horas, durante dez a trinta minutos de cada lado. Hoje, reconheço a importância da livre demanda.

Já ouvi e reproduzi que uma mulher que engravidasse enquanto amamentava deveria interromper a amamentação por causa da ocitocina, supostamente “abortiva”. Hoje conheço a lactogestação e o tandem.

Já defendi evitar cama compartilhada. Hoje sei que é uma ótima opção, mas preciso também falar sobre segurança.

Não foram apenas mudanças de opinião. Foram mudanças de postura.

E algumas delas doem mais porque nos obrigam a olhar para trás e reconhecer: eu estava errado.

Mas há dois erros que ainda me fazem parar.

 

Primeiro: nós não somos os protagonistas da amamentação

Existe uma espécie de vício profissional que começa na faculdade.

Saímos de lá acreditando que somos os protagonistas da história.

Nós sabemos.

Nós orientamos.

Nós corrigimos.

Nós ensinamos.

Nós salvamos.

O paciente, coitado, chegou sem saber.

Nós chegamos com o “conhecimento inabalável”.

Na amamentação, essa arrogância pode ser especialmente cruel.

Porque demorei para entender algo absolutamente básico: não é sobre mim.

Não é sobre os meus conhecimentos, sobre minha capacidade de convencer e “ensinar” uma mulher a amamentar, sobre ganhar uma discussão ou sobre provar que eu sei mais.

A amamentação não precisa de protagonistas profissionais.

Precisa de profissionais que saibam não ocupar o palco.

Quem protagoniza a amamentação é a díade mãe-bebê.

E nessa ordem.

Nós podemos informar, proteger, promover, apoiar, acolher, podemos até ajudar a resolver dificuldades.

Mas a amamentação acontecerá com, sem ou apesar de nós.

E isso deveria ser libertador.

Em vez disso, às vezes nos incomoda.

Porque é difícil ser coadjuvante quando passamos anos aprendendo que deveríamos ser os protagonistas.

A comunicação também tem duas vias.

A que vai e a que vem.

Durante muito tempo, treinamos muito a primeira.

Falar. Explicar. Orientar. Prescrever. Corrigir.

E nos esquecemos da segunda.

Escutar.

Escuta ativa. Empatia. Sem julgamento. Isso tem nome: Aconselhamento.

E deveria ser um curso obrigatório na formação de qualquer profissional que trabalhe com saúde materno-infantil.

Porque nós não convencemos uma mãe a amamentar.

Mas podemos fazer uma coisa muito mais perigosa: podemos atrapalhar.

 

Segundo: a “gentileza” que tinha preço

Eu estava no segundo ano da residência médica na Santa Casa de São Paulo quando Renato, meu primeiro filho, nasceu.

Eu era residente. Pouco dinheiro. Nenhum consultório. Dois subempregos. Uma esposa em licença-maternidade. E um conhecimento sobre aleitamento materno que, sendo generoso comigo mesmo, beirava o zero.

Foi então que apareceu um representante de uma indústria.

Muito simpático.

Muito atencioso.

Muito preocupado comigo.

Soube que meu filho havia nascido e ofereceu fórmula infantil suficiente para os seis primeiros meses.

Uma fórmula que, segundo ele, “se assemelhava muito ao leite materno”.

E eu acreditei.

Mais do que isso.

Eu agradeci.

Naquele momento, aquilo parecia uma gentileza.

Uma empresa estava olhando para um jovem residente sem dinheiro, sem consultório. Sem importância e oferecendo ajuda.

Eu não enxerguei marketing. Enxerguei solidariedade.

Não enxerguei conflito de interesses. Enxerguei generosidade.

Não enxerguei estratégia. Enxerguei uma mão estendida.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquela mão não estava apenas estendida.

Ela era uma isca, um canto da sereia para me “hipnotizar”.

E eu não tinha sido preparado para perceber.

Não me ensinaram suficientemente sobre a importância do aleitamento.

Não me ensinaram sobre os riscos e limitações das fórmulas infantis.

E, principalmente, não me ensinaram a reconhecer a sofisticação das estratégias de marketing da indústria.

Naquela época não havia redes sociais, influenciadores, algoritmo ou #publi.

Mas já havia marketing.

E muito competente.

Talvez o marketing tenha mudado de roupa, mas não mudou de natureza. Lobo em pele de cordeiro.

Primeiro cria-se proximidade.

Depois, confiança.

Depois, necessidade.

E então aparece a solução.

Criar dificuldades para vender facilidades.

Demorei para entender.

Mas entendi.

E, quando a ficha caiu, caiu com força.

Desde então, passei a falar cada vez mais sobre essa influência nas minhas aulas, palestras e textos.

Meu livro – Amamentar é resistir. Um manifesto pela promoção, proteção & apoio ao aleitamento materno – nasceu também desse processo.

Foi uma forma de tentar corrigir o caminho.

Uma espécie de retratação pública.

Porque não acredito mais que reconhecer um erro diminua alguém.

Talvez seja justamente o contrário.

O erro escondido nos estanca.

O erro reconhecido pode ensinar.

E talvez seja essa a parte mais difícil da maturidade profissional:

aceitar que algumas das coisas que defendemos um dia podem não merecer mais nossa defesa.

Que aquilo que ensinamos pode precisar ser desaprendido.

Que experiência não é sinônimo de evidência.

Que opinião não é ciência.

Que convicção não é competência.

E que ter dúvida não é sinal de fraqueza.

Às vezes, é sinal de que, finalmente, começamos a refletir.

Por isso, hoje, diante de tantas certezas sobre amamentação, prefiro guardar algumas dúvidas.

Prefiro escutar antes de responder.

Prefiro perguntar antes de afirmar.

Prefiro apoiar antes de julgar.

E, principalmente, prefiro me lembrar de que não sou o protagonista.

Sou apenas alguém que percorreu uma parte do caminho.

Errou.

Acertou.

Mudou de direção.

E ainda está aprendendo, pode errar, acertar e mudar de direção.

No fim das contas, talvez seja justamente isso que nos torna humanos.

Não à perfeição.

Não às certezas.

Não à infalibilidade.

Mas à capacidade — às vezes tardia, às vezes dolorosa — de olhar para trás e dizer:

Eu estava errado.

E seguir em frente.

Por isso, concluo com Paulo Leminski.

Um poema com três palavras.

Uma pequena obra-prima.

Um consolo.

Um alerta.

E, para mim, uma espécie de assinatura:

HERRAR É UMANO.

 

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