Foram 2 semanas de muita reflexão, como sempre são meus dias. Um ritual de algumas passagens, que acontecem com todos. E, nesse período, presente sempre a questão do aleitamento materno.

E caí em um texto de hoje (2022), que me levou a um de 2018, que me levou a um de 2009, onde resolvi parar. E todos eles me atropelando. Assim, citando John Adams (segundo presidente dos EUA – 1797-1801):

Atrevamo-nos a ler, pensar, falar e escrever.

E é baseado nessa premissa, que lá vai, talvez, o texto mais difícil e até indigesto que eu tenha escrito, com as devidas referências. E antes de começar, vale trazer algumas informações:

Sou ativista do aleitamento. Sou ativista do leite materno. Estou sempre disposto a estar ao lado, ouvir e apoiar qualquer mãe que tenha necessidade de informação. Não tenho nada contra fórmulas infantis, importantes como substitutos de leite materno, mas só quando este, por alguma razão, não estiver disponível ou estiver fora de questão.

 

Esse não é um texto contra a amamentação.
Esse é um texto pró-mães.

Joana Tavares – MG
Texto publicado em 13/06/2022.

“ficamos espremidas entre o discurso consumista, mercadológico e pragmático do combo cesárea-mamadeira-chupeta-fórmula – esquina um. E a outra esquina, que diz todo o poder está em mim, no meu corpo, no meu instinto, na minha natureza feminina que fica correndo com lobos. Que meu coração sabe o que é certo, sendo que meu coração, coitado, não sabe direito nem se é noite ou dia, tem que cuidar do meu corpo em recuperação, aprender a cuidar de outro corpinho…”

Esse texto me lembra uma conversa entre “pediatras do bem” que usam aconselhamento (sim, de novo e sempre: Escuta ativa. Empatia. Sem julgamentos).

“Nós, pediatras, não podemos querer amamentar mais do que a própria mãe.”

Sabemos da importância nutricional, imunológica, metabólica do leite materno, tanto para a mãe como para o bebê. E, muitas vezes, por “nossas certezas”, acabamos por não escutar ou não enxergar o que sente uma mãe que nos procura.

E vocês, nesse momento, podem estar até me julgando (como já aconteceu em outros textos meus).
– Ele é homem. Quem é ele para saber dos nossos sentimentos?

São mais de 40 anos tentando exercitar o aconselhamento (mesmo antes de saber o que isso era). E as mães me ensinaram tanto. E, generosamente, continuam me ensinando.

Também li essa frase e vale:
“Sou uma espécie de canal pelo qual a conversa transita.”

Dafne Melo – Buenos Aires
Texto publicado em 02/08/2018.

“Pode parecer paradoxal, mas para que o Brasil possa ampliar sua média de aleitamento (que hoje não chega a 60 dias) é necessário admitir algo muito simples: amamentar pode ser algo extremamente difícil para algumas mães e bebês. Saber como falar dessas dificuldades, informando, mas sem gerar medo, apreensão ou até desmotivando futuras mães é um grande desafio.”

“Resgatar o valor da amamentação, entretanto, passa também por retirá-la do lugar idealizado e admitir que essa experiência quase sempre é cheia de percalços, desafios e pode não dar certo — e tudo bem se não der. Exigir que toda mulher amamente e afirmar que para isso “basta querer” é o mesmo que dizer que toda mulher pode ter um parto natural, bastando se preparar para tal e ter força de vontade. É extremamente injusto e desumano jogar essa responsabilidade no colo das mães.”

Amamentar não é simples, não é fácil e está deixando de ser natural. Escrevo isso já há um bom tempo porque essa foi minha observação.

E o julgamento sobre o que eu escrevo continua:
– Como assim deixando de ser natural?

Abaixo dos 6 meses, aleitamento materno exclusivo no Brasil é referido por 45,8% das mães (ainda menos da metade). Querer 100% é absurdo. Certo. Mas, menos da metade?????

Thais Vinha – Brasil
Texto publicado em 23/04/2009.

(Filha de Vera Heloisa Pileggi Vinha, Enfermeira, graduada e professora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, encantada e apaixonada pelo aleitamento materno, tema que foi sua vida, com mais de 50 publicações a respeito, muitas delas referências na área até hoje. Mas ela representa muito mais do que sua obra.)

O mais polêmico com certeza. Texto da Thais. Fala é da Vera. Ambas Vinhas.

“Amamentar não é um ato de amor.

Amamentar é optar por dar o melhor alimento ao bebê. Não tem nada a ver com amar. Se fosse assim, poderíamos dizer que os pais amam menos seus filhos? Eles não amamentam. As mães adotivas também não. Ou as mulheres que fizeram plástica. Ou as mães que precisaram desmamar seus bebês para trabalhar…será que todos eles amam menos seus filhos porque não amamentam? Quanto mais desmistificarmos o aleitamento, melhor.

E as mulheres que por algum motivo não conseguem amamentar, precisam parar de sofrer. De sentir culpa. Existem muitas outras formas delas darem o suporte psicológico que o bebê precisa. É óbvio que o aleitamento é a melhor escolha, mas a partir do momento que esta escolha não pode ser feita, a mãe deve parar de sofrer.”

Devo ter me influenciado, em algum momento da minha trajetória, por essa fala. Forte. Polêmica. Mas, para mim, tão real e tão verdadeira.

  • Amamentar não define amor.
  • Não amamentar não representa desamor.
  • Amamentar é um direito (mãe e bebê), e, assim, pode ou não ser exercido.
  • Leite materno foi, é e continuará sendo o padrão-ouro da nutrição infantil.
  • A questão é estarmos preparados para dar todas as condições e proteger, promover e apoiar as mães que desejem amamentar e dar informações éticas, empáticas, sem julgamentos sobre aleitamento materno para todas as mães, quer elas amamentem quer não.

Provocando:

COMO podemos, de forma “ativa”, avançar e propor alternativas CONCRETAS pra avançar nesse apoio que enxergamos tão necessário?

 

Moises Chencinski é pediatra e homeopata, criador
e gestor do movimento “Eu apoio leite materno”. Pode ser encontrado nos perfis do
Instagram @doutormoises/@euapoioleitematerno/@omelhorprodutodomundo