Pelo enésimo dia consecutivo, meu filho estava saindo de casa para ir para a escola com o mesmo tênis surrado.

 – Otávio, pega outro sapato. Você tem tantos e só usa esse! Vamos dar chance para os outros pares.

       – Mãe, esse está ótimo. Eu gosto dele e não preciso dos outros.

Eu ameacei abrir a boca para falar que usar o sapato daquele jeito ia dar chulé quando consegui conter a língua. “Eu não preciso de outros” era a frase que ecoava nos meus ouvidos naquele final de amanhã. E ficou ecoando pelo dia inteiro.

Lembrei da cômoda da gaveta dele, cheia de blusas de todas as cores e estilos. Muitas ainda com etiquetas, intocadas. Por outro lado, ele insistia em usar as mesmas quatro camisetas velhas que, inclusive, eu tive que costurar os buracos em algumas. Pequenas e surradas. Porém, inseparáveis. Quem tem criança sabe: quando eles encasquetam com uma roupa, usam até não caber mais. Usam, amam, e não se importam se o short combina com a blusa, ou com a meia, ou com o sapato.

Isso me fez pensar: em que momento da vida passamos a ter a necessidade de ter variedade? Em que momento a “chavinha” do consumo muda e passamos a querer ter uma blusa de cada cor, um sapato de cada modelo, um casaco de cada estilo da moda? Quando a opinião dos outros sobre o que usamos e vestimos passa a ter um peso grande no nosso jeito de ser, de se vestir, de consumir?

Me vi no papel de carrasco

Quando insisto para que ele troque sua roupa favorita por uma mais nova, mais bonita e, assim, na minha visão de adulta, mais condizente com o evento que ele irá visitar. Quando compro roupas novas mesmo sabendo que ele não precisa e já tem as suas favoritas. Quando começo a chamar a atenção dele para a importância de uma “boa aparência”.

Claro que uma “boa aparência” é desejável, mas a métrica certamente deve ser a nossa própria opinião e autoestima, e não um julgamento externo. Quando insistimos que aquela mochila surrada que ele leva para a escola “precisa” ser trocada, ou aquele chinelo não dá para ser usado na festinha do amigo… aos poucos vamos colocando dúvidas sobre a opinião da criança acerca das escolhas dela. E vamos ensinando para a criança sobre o valor da opinião alheia na nossa aparência.

O resultado de tudo isso? Um adulto que consome o que não precisa para ser bem visto pelos outros.

Uma sinuca de bico. E aí: deixar a criança ir de camiseta puída no batizado do primo? O quanto a aparência dos nossos filhos e a forma que os outros o verão nos afeta como mães? Seremos julgadas como desleixadas pelas roupas que deixamos nossos filhos usarem? Certamente sim.

Basta ele se sentir bem com o que está vestindo

No batizado do irmão, Otávio usou uma calça de moletom verde azeitona com uma camisa social jeans azul claro. Foi o que conseguimos negociar para não chegarmos atrasados à missa. A outra opção era um short de tactel com chinelo e camisa do super homem. Eu ouvi na igreja: e essa roupa do Otávio, é assim mesmo? Respondi que não era a roupa que eu queria, mas era a que ele se sentia bonito e, dessa forma, isso para mim bastava. E aprendi que isso basta.

Consumo: aprendi melhor com meu filho

Que ele escolha as próprias roupas, que ele decida quando está precisando de uma calça nova, que ele se sinta bem com as escolhas e a aparência dele. Que a minha opinião seja considerada, claro, se ele sentir necessidade, mas que não seja primordial.

Observando o meu filho, aprendi a consumir melhor.

A usar mais as minhas peças favoritas. A me importar menos com o que está na moda, ou com o que os outros vão falar das minhas escolhas. Se eu estou me sentindo bem e confortável, está perfeito. Não preciso de pilhas de roupas e sapatos, e nem ele precisa.

O meu cartão de crédito agradece.