Melhor começar reforçando que o ideal seria que todas as mulheres amamentassem seus bebês desde a sala de parto, exclusivo e em livre-demanda até o sexto mês, até o desmame oportuno, após os 2 anos de idade.

Vale reforçar, ainda, que a amamentação é um direito de mãe e bebê e não uma obrigação. Assim, é uma decisão da mãe se, como, quando e até quando ela pode e vai amamentar.

Para os bebês que não conseguem ou não podem ser amamentados, a nossa primeira opção, como pediatras, é o uso de fórmulas infantis e não de compostos lácteos ou de leite de vaca integral.

Quem dera a indústria de substitutos de leite materno tivesse a mesma consciência e respeito pela saúde materno-infantil. Doce (sim, cheia de açúcar mesmo) ilusão.

Vamos a dois fatos e duas formas de ação diferentes e muito recentes que prejudicam a cultura de amamentação.

LOBO EM PELE DE CORDEIRO: A ESCANCARADA

 Artigo publicado recentemente traz uma proposta no mínimo antiética, para não dizer desumana e de altíssimo risco, em uma região de altíssimo risco (Guiné-Bissau e Uganda, na África), para uma população de altíssimo risco (recém-nascidos de baixo peso ao nascer).

Embasados em ser a “desnutrição infantil grande fardo de saúde em todo o mundo que aumenta a morbidade e mortalidade infantil e causa prejuízo no crescimento infantil e atrasos no desenvolvimento que podem persistir na idade adulta” e que “as primeiras semanas e meses após o nascimento são fundamentais para o estabelecimento de um crescimento e desenvolvimento saudáveis ​​durante a infância” se faz uma proposta de um estudo:

Avaliar a eficácia da fórmula por 30 dias entre bebês com baixo peso ao nascer (BPN) menos de 6 horas de idade e aqueles não BPN com peso abaixo de 2600 gramas aos 4 dias de idade.”

E aí, acreditem se quiserem, a “brilhante” ideia de “comparar aleitamento materno e fórmula (até 59 mililitros administrados diariamente) até 30 dias de idade infantil versus recomendações para AME frequente sem suplementação e testar a hipótese de que a fórmula aumenta o escore z de peso para idade aos 30 dias de idade infantil”.

O protocolo do estudo mostra conhecimento de que o grupo que receberá a fórmula apresenta grandes chances de “diarreia, doenças infecciosas e interrupção do aleitamento materno” e “maior risco de eventos adversos, hospitalização ou morte em relação aos lactentes do grupo AME”.

Esse estudo foi financiado pela Fundação Gates, aprovado pela Universidade da Califórnia, pelo Conselho de Revisão Institucional de São Francisco e pelos comitês de ética de Uganda e Guiné-Bissau. Um dos pesquisadores declara financiamento pela Danone (2ª maior empresa de fórmulas do mundo) e o produto utilizado é a fórmula infantil Abbott comprada no varejo, que declara que não tem nenhum papel no estudo além de fabricar a fórmula para venda comercial.

A IBFAN (International Baby Food Action Network ou Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar) denunciou esse estudo e já fez apelo à suspensão imediata em Uganda, onde o julgamento já começou, e na Guiné-Bissau (em breve). 

LOBO EM PELE DE CORDEIRO: A DISFARÇADA 

Anunciada também recentemente, uma ”iniciativa” que teria tudo para ser elogiada e estimulada, mas que esconde, bem camufladinha, uma ação do marketing da indústria de substitutos de leite materno.

É um projeto da Carochinha com o portal Ninhos do Brasil, em uma “parceria para incentivar a leitura em família” que traz a “proposta vem da visão de que o hábito da leitura pode ser um aliado poderoso no desenvolvimento, acompanhando as mudanças corporais e psicológicas das crianças”.

Interessante, não é? Promover a leitura, a interação familiar… ahan. Massssssssss….

Segue a notícia, informando que “títulos infantis que abordam temáticas ligadas ao crescimento das crianças foram escolhidos para compor uma nova coleção. Em formato exclusivo, eles vão estar disponíveis em kits com produtos da marca Ninho em pontos de venda das regiões Norte e Nordeste do Brasil, e, também, nos estados de Rio de Janeiro e Minas Gerais”.

A “campanha” traz 5 títulos, ressaltando que “a leitura é uma grande aliada de mães, pais e cuidadores no auxílio dos novos desafios enfrentados em cada fase das crianças, especialmente na abordagem de assuntos delicados. Para as crianças um mundo de possibilidades se abre, elas se tornam protagonistas de cada história, ressignificando muitas coisas em suas vidas”. O que é muito verdadeiro.

Mas o marketing cruel por trás dessas “boas intenções” utiliza de meios condenados (lembra do ovo de chocolate que vendia com brindes dentro ou da rede de fast food com um lanche que trazia “felicidade” – ambas com comercialização proibidas no Chile e só o primeiro nos Estados Unidos para controle de obesidade, pela sua propaganda abusiva).

São 2 opções de kit com produtos Ninhos e um livro da coleção. Assim, para ter a coleção completa, será necessário adquirir 5 kits com leite.

Vamos estimular a leitura?

Por que não investir em bibliotecas e ceder esses livros, gratuitamente, sem nenhuma outra intenção, ao invés de vincular sua “aquisição” a um produto de leite, em cidades onde nem tem biblioteca?

Mas quem hoje se disfarça já foi escancarado. Em 1974, a War On Want foi a primeira organização a chamar a atenção para os danos causados ​​pelas empresas de leite para bebês com sua publicação inovadora de 1974, The Baby Killer, que foi investigação sobre a promoção e venda de leites infantis em pó no Terceiro Mundo.

Dados do site da IBFAN-BRASIL, indicam que a “empresa entrou com uma ação por difamação. Embora a Nestlé tenha vencido o julgamento que durou dois anos, os réus tiveram apenas que pagar uma multa de US $ 400. O juiz também comentou que a empresa teria que modificar seus métodos de marketing. Esta questão ganhou ainda mais publicidade em 1976, quando a Time declarou os resultados do julgamento uma “vitória moral” para o Grupo de Ação do Terceiro Mundo e suas descobertas”. Essa questão foi também mostrada em filme documentário (TIGERS), com distribuição aqui no Brasil (streamings).

Lobo em pele de cordeiro ou o próprio lobo? Quem é o pior?

 

 


Moises Chencinski
é pediatra e homeopata, criador
e gestor do movimento “Eu apoio leite materno”. Pode ser encontrado nos perfis do
Instagram @doutormoises/@euapoioleitematerno/@omelhorprodutodomundo